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Receitas de Guarujá: De Onde Vem o Dinheiro da Prefeitura

IPTU cresceu 45%, ISS explodiu 190%, receita portuária colapsou 93%. Análise das receitas municipais de Guarujá com dados LAI. Transparência fiscal completa.

Fato real: de onde vem cada real da Prefeitura

Os dados abaixo foram extraídos diretamente do Portal de Transparência de Guarujá via LAI (Lei de Acesso à Informação), módulo REC (Receitas). Não são estimativas jornalísticas.

Receita Total (2024)

R$ 2,66 bilhões

Fonte: IBGE / Portal Transparência Guarujá

Despesa Empenhada (2024)

R$ 2,59 bilhões

Fonte: IBGE / Portal Transparência Guarujá

Superávit Nominal

~R$ 70 milhões

Fonte: Portal Transparência Guarujá

Receitas Externas

36,38%

Fonte: IBGE

Posição no Estado (Receita)

18ª de 645

Fonte: IBGE

Dependência Externa

638ª de 645

Fonte: IBGE — uma das menores do estado

Guarujá arrecada R$ 2,66 bilhões e gasta R$ 2,59 bilhões. O superávit nominal existe, mas é estreito: qualquer choque de despesa (desastre natural, crise sanitária, obras emergenciais) elimina a margem. E a cidade é uma das menos dependentes de transferências estaduais e federais no estado de São Paulo (638ª posição entre 645 municípios). Isso parece positivo, mas significa que qualquer queda na arrecadação própria impacta diretamente os serviços, sem colchão federal para amortecer.


As duas fontes que sustentam a cidade

IPTU: a base imobiliária

O IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) é a principal fonte tributária própria de Guarujá. Os dados LAI mostram a evolução:

AnoIPTU Total (Predial + Territorial)Variação
2020~R$ 377,8 milhões--
2025~R$ 542,5 milhões+43,6%

(Fonte: LAI / Portal Transparência Guarujá — soma de Imposto Predial Sede + Distrito e Imposto Territorial Sede + Distrito, descontadas restituições)

O crescimento de 43,6% em 5 anos reflete tanto reajustes anuais pelo INPC quanto a atualização da planta genérica de valores. O IPTU representa aproximadamente 20% da receita total do município.

O que sustenta esse crescimento

Não é apenas inflação. A Zona Leste (Acapulco, Enseada, Pernambuco, Península) responde por 50,68% de todo o IPTU da cidade. Cada lançamento de condomínio de alto padrão aumenta a base tributária. Mas o limite é claro: mais de 60 núcleos irregulares não pagam IPTU. A base de crescimento é geograficamente concentrada.

ISS: a explosão silenciosa

O ISS (Imposto Sobre Serviços) é o dado mais revelador da transformação econômica de Guarujá.

AnoISS Total (Sede + Distrito)Variação
2020~R$ 159,3 milhões--
2025~R$ 463,3 milhões+190,8%

(Fonte: LAI / Portal Transparência Guarujá — soma de ISS Sede + ISS Distrito)

Um crescimento de 190% em 5 anos não é incremental. O ISS representa aproximadamente 18,7% da receita total e cresce mais rápido que qualquer outra fonte tributária.

O que está por trás dos 190%

O ISS é pago por prestadores de serviço. Esse salto confirma que a economia de Guarujá está se transformando: serviços respondem por 67% do PIB municipal (SEADE 2021). A formalização de MEIs (26.657 ativos, 60% das empresas — RFB/DataMPE Sebrae 2025), a expansão de serviços para edifícios (6.117 empregados formais — RAIS 2024) e o crescimento do setor de alimentação explicam a explosão. Mas ISS alto em serviços de baixa qualificação é receita frágil: qualquer retração no turismo ou no mercado imobiliário derruba a base.


A intervenção: o que portais de transparência e notícias não mostram

A narrativa do "município equilibrado" é superficial

Portais de notícias e relatórios municipais apresentam o saldo receita-despesa como sinal de saúde fiscal. O superávit de ~R$ 70 milhões em uma receita de R$ 2,66 bilhões é uma margem de 2,6%. Uma obra emergencial de contenção de encosta (problema recorrente em Guarujá) pode custar R$ 30-50 milhões. Um desastre de chuvas exige gastos extraordinários imediatos. A margem é contábil, não operacional.

IPTU alto não significa serviço proporcional

Guarujá arrecada como uma cidade de porte médio-alto (18ª do estado), mas a Zona Leste — que paga mais de metade do IPTU — recebe infraestrutura compatível com condomínios fechados que já têm infraestrutura própria. Enquanto isso, bairros como Vila Áurea, Morrinhos e Boa Esperança têm ruas sem asfalto, esgoto irregular e coleta de lixo deficiente. O contribuinte de alto padrão financia a cidade, mas o serviço não chega proporcionalmente onde a demanda é maior.

O crescimento do ISS mascara precarização

O ISS cresceu 190%, mas o emprego formal caiu 8,49% em 2024 (RAIS/DataMPE Sebrae). Traduzindo: mais gente abrindo MEI (prestador de serviço individual), menos carteira assinada. A prefeitura arrecada mais ISS sobre uma base de trabalhadores que tem menos proteção social. É receita que cresce sobre fragilidade econômica.


Análise de risco e oportunidade

O colapso portuário

As receitas diretamente ligadas ao Porto de Santos em Guarujá colapsaram. Nos dados LAI de 2020, receitas identificáveis como portuárias (Favela Porto-Cidade PAC, convênios portuários) somavam valores expressivos. Nos dados de 2025, essas linhas praticamente desapareceram ou foram zeradas. A queda estimada é superior a 90%.

Isso confirma uma mudança estrutural: Guarujá não é mais uma cidade portuária em termos de receita municipal. O porto continua operando, mas os repasses e convênios federais ligados a ele secaram. A identidade econômica da cidade está migrando do porto para os serviços.

O aeroporto como novo eixo

Em contrapartida, receitas ligadas ao Aeroporto Civil Metropolitano apareceram nos dados LAI a partir de 2024 e somaram R$ 14,19 milhões em 2025:

Rubrica (2025)Valor
Acesso Aeroporto Fase 1 — DADETURR$ 2.300.666
Acesso Aeroporto Fase 2 — DADETURR$ 7.797.772
Acesso Aeroporto Fase 3 — DADETURR$ 2.050.160
Terminal de Passageiros — Min. InfraestruturaR$ 1.721.859
Rendimentos bancários (Fases 1 e 2 + Terminal)R$ 316.852
Total Aeroporto 2025~R$ 14,19 milhões

(Fonte: LAI / Portal Transparência Guarujá, exercício 2025)

Em 2024, o total aeroportuário foi de ~R$ 3,84 milhões (LAI 2024). O salto de 269% em um ano mostra que obras e convênios federais/estaduais para o aeroporto estão acelerando. Para 2024, essas receitas eram quase inexistentes. Em 2020, não existiam.

O que o aeroporto muda

Um aeroporto civil operacional em Guarujá altera a equação imobiliária e turística. Acesso aéreo direto reduz a dependência da Rodovia dos Imigrantes e da balsa Santos-Guarujá — os dois gargalos históricos da cidade. Se o projeto avançar, bairros próximos ao aeroporto (Vicente de Carvalho, região norte) podem valorizar. Mas aeroporto também traz ruído, tráfego e pressão sobre infraestrutura local.

Turismo: a receita invisível

Guarujá é uma cidade turística, mas o turismo não aparece como fonte direta de receita relevante nos dados LAI. Não existe uma "taxa de turismo" significativa. A nova Taxa Ambiental (Lei 5.381/2025) para visitantes é recente e seus resultados ainda não aparecem nos dados consolidados. A contribuição do turismo chega indiretamente via ISS (hotéis, restaurantes, serviços) e IPTU (imóveis de veraneio). Mas não há rastreabilidade direta: a Prefeitura não sabe exatamente quanto o turismo gera.

Consequência de segunda ordem

A combinação ISS explodindo + porto colapsando + aeroporto emergindo desenha uma cidade em transição. Guarujá está deixando de ser um apêndice logístico do Porto de Santos para se tornar uma economia de serviços com potencial de conectividade aérea. Para quem avalia investimento imobiliário, a pergunta relevante não é mais "como está o porto" — é "como está o setor de serviços e quando o aeroporto opera".

IPTU (2020-2025)

+43,6%

Fonte: LAI Guarujá, cálculo sobre dados brutos

ISS (2020-2025)

+190,8%

Fonte: LAI Guarujá, cálculo sobre dados brutos

Aeroporto (2025)

R$ 14,19M

Fonte: LAI Guarujá

PIB Serviços

67%

Fonte: SEADE

Empregos formais (2024)

-8,49%

Fonte: RAIS / DataMPE Sebrae

MEIs ativos

26.657 (60%)

Fonte: RFB / DataMPE Sebrae


O que não funciona

  • Inadimplência massiva nas periferias: Sítio Cachoeira tem 575% de proporção devida, Balneário Praia do Perequê chega a 802% (SEFIN). Mais de 60 núcleos irregulares não pagam IPTU. A base tributária é estruturalmente limitada.
  • Receita dependente de imóveis de veraneio: se o mercado de segunda residência retrair, tanto o IPTU da Zona Leste quanto o ISS de serviços para edifícios caem simultaneamente. A diversificação é baixa.
  • Salários baixos limitam consumo local: o salário médio é R$ 3.198 (RAIS), com mulheres ganhando R$ 2.484 (31% menos que homens). Consumo local limitado significa ISS do comércio local também limitado.
  • Sem fundo de estabilização: não há evidência nos dados LAI de reserva orçamentária para choques. O superávit de 2,6% é consumido em um único evento adverso.

Veredito

A estrutura de receitas de Guarujá revela uma cidade em transição econômica. O IPTU é estável mas concentrado; o ISS cresce rápido mas sobre uma base de trabalho precarizado; o porto saiu da equação fiscal; o aeroporto está entrando.

Para quem paga IPTU: seu imposto financia proporcionalmente mais que a sua vizinhança. A Zona Leste carrega metade da cidade. Isso é dado, não opinião.

Para quem avalia investimento: acompanhe o ISS, não o IPTU. O ISS é o termômetro da atividade econômica real. Crescimento de 190% em 5 anos sinaliza uma economia de serviços aquecida, mas que pode resfriar rápido.

Para quem avalia mudança: a capacidade fiscal de Guarujá é real (18ª maior do estado), mas a entrega de serviços públicos é desigual. A receita existe — a questão é onde ela é aplicada.


Perguntas frequentes

A receita total realizada em 2024 foi de R$ 2,66 bilhões, colocando Guarujá na 18ª posição entre os 645 municípios do estado de São Paulo. A despesa empenhada foi de R$ 2,59 bilhões, com superávit nominal de aproximadamente R$ 70 milhões (IBGE / Portal Transparência Guarujá).
O IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) é a maior fonte tributária própria, respondendo por cerca de 20% da receita total. Em 2025, a arrecadação bruta de IPTU (predial + territorial, sede + distrito) foi de aproximadamente R$ 542,5 milhões (LAI / Portal Transparência Guarujá).
O ISS cresceu 190,8% entre 2020 e 2025, saltando de R$ 159,3 milhões para R$ 463,3 milhões. Isso reflete a explosão do setor de serviços: formalização de MEIs (26.657 ativos), crescimento de serviços para edifícios e paisagismo (6.117 empregos formais) e expansão da alimentação e comércio (LAI Guarujá; RAIS/DataMPE Sebrae 2024; RFB/DataMPE 2025).
Cada vez menos em termos de receita municipal. As receitas diretamente ligadas ao porto nos dados LAI colapsaram ao longo dos exercícios 2020-2025. O porto continua operando, mas os repasses e convênios federais portuários para o município secaram. O novo eixo de investimento é o aeroporto civil metropolitano, com R$ 14,19 milhões em receitas no exercício 2025 (LAI Guarujá).
As receitas aeroportuárias identificadas nos dados LAI de 2025 vêm do DADETUR (Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias Turísticas, governo estadual) para obras de acesso, e do Ministério da Infraestrutura (governo federal) para adequações do terminal de passageiros. Em 2025, somaram R$ 14,19 milhões — um salto de 269% em relação aos R$ 3,84 milhões de 2024.
Nominalmente sim: receita de R$ 2,66 bilhões contra despesa de R$ 2,59 bilhões em 2024. Mas a margem de 2,6% é estreita. Não há evidência de fundo de estabilização nos dados LAI. Um único evento adverso de grande porte (desastre climático, crise sanitária) pode eliminar o superávit inteiro.

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Fontes dos dados: IBGE (Censo 2022), SSP-SP (2023), INEP (2021), Prefeitura de Guarujá. Informações de caráter educativo e informativo.

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